NEM TODO JOGO ELETRÔNICO FAZ MAL PARA A SAÚDE EMOCIONAL DA CRIANÇA
Você acredita que jogos eletrônicos fazem mal para o seu filho? Se você
tem uma criança em casa, é possível que já tenha escutado frases ambíguas sobre
o uso de telas na infância, os riscos dos videogames, dos jogos online ou do
consumo de vídeos.
Essa ideia se espalhou muito nos últimos anos e acabou criando a
impressão de que qualquer jogo eletrônico ou uso de tela é automaticamente
prejudicial para a saúde emocional das crianças, mas quando olhamos para o que
mostram os estudos mais recentes da neurociência, a história é mais
interessante do que essa conclusão rápida.
Primeiro ponto importante: nem todo
uso de tela funciona da mesma forma para o cérebro da criança. Existe uma
diferença enorme entre passar muito tempo assistindo vídeos de forma passiva e
jogar algo que exige raciocínio, estratégia e tomada de decisão.
Em muitos jogos eletrônicos, a criança precisa prestar atenção em vários
estímulos ao mesmo tempo, lembrar informações importantes, tomar decisões
rápidas e ajustar estratégias para avançar.
Isso ativa um conjunto de habilidades cognitivas conhecidas como funções executivas, fundamentais para o desenvolvimento infantil. Estamos falando
de capacidades como atenção sustentada, memória operacional, controle de
impulsos e flexibilidade cognitiva.
Na prática, isso significa que o cérebro da criança não está apenas
recebendo estímulos. Ele está trabalhando para resolver problemas.
Outro ponto interessante é que muitos jogos funcionam em um sistema de
desafio progressivo. A criança tenta resolver uma fase, erra, tenta novamente,
ajusta a estratégia e continua tentando até conseguir avançar. Esse processo de
tentativa, erro e ajuste é um dos mecanismos mais importantes para o
aprendizado no cérebro em desenvolvimento.
Do ponto de vista emocional, essa dinâmica também pode ser muito rica.
Quando a criança perde uma fase e tenta novamente, ela entra em contato com
frustração, persistência e superação. Quando finalmente consegue avançar,
surge uma sensação de conquista que fortalece o senso de competência.
Esse tipo de experiência tem muita relação com algo que também aparece
na Terapia Cognitivo Comportamental para crianças e adolescentes. Muitas vezes
utilizo jogos e atividades lúdicas justamente porque eles ajudam a criança a
aprender habilidades emocionais importantes de forma prática.
Isso não significa que qualquer videogame seja automaticamente saudável
ou que o uso de telas não precise de limites. O ponto central não é
simplesmente permitir ou proibir jogos eletrônicos. O ponto central é como
essa tecnologia entra na rotina da criança.
Quando o uso acontece com orientação, equilíbrio e escolha cuidadosa dos jogos, alguns videogames podem estimular atenção, raciocínio, persistência e até habilidades emocionais importantes para o desenvolvimento.
Por isso, a pergunta mais útil talvez não seja se videogames fazem mal.
A pergunta mais importante é: como você e seu filho estão usando essa
ferramenta?
VIDEOGAME PODE AJUDAR NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA?
Durante muito tempo, a discussão sobre jogos eletrônicos ficou presa
quase exclusivamente aos riscos. Mas os estudos mais recentes sobre
desenvolvimento infantil trouxeram uma pergunta interessante: alguns
videogames poderiam estimular habilidades importantes para o cérebro da
criança?
Pesquisas em neurociência do desenvolvimento mostram que certos jogos
digitais não funcionam apenas como entretenimento. Muitos deles exigem que a
criança tome decisões rápidas, mantenha atenção em múltiplos estímulos e resolva
problemas enquanto a situação muda constantemente dentro do jogo.
Enquanto joga, a criança precisa observar o ambiente, identificar pistas
importantes, antecipar consequências e escolher a melhor estratégia para
avançar. Em vários jogos, uma decisão equivocada exige uma mudança rápida de
plano.
Esse processo envolve algo muito importante para o desenvolvimento
cognitivo: flexibilidade cognitiva, que é a capacidade de ajustar
estratégias quando uma solução deixa de funcionar.
Esse tipo de interação ativa mobiliza diferentes processos cognitivos ao
mesmo tempo.
A criança precisa manter informações em mente enquanto executa uma ação,
lembrar regras do jogo, monitorar o que está acontecendo na tela e ajustar seu
comportamento de acordo com o resultado.
Do ponto de vista do desenvolvimento, essas capacidades são fundamentais
para manter foco em tarefas, organizar etapas de atividades e persistir diante
de desafios. Em muitos jogos, essas habilidades são constantemente exigidas. O
jogador precisa aprender novas regras, lidar com desafios que vão ficando
progressivamente mais complexos e adaptar suas estratégias conforme o jogo
evolui.
Esse tipo de ambiente cria uma experiência de aprendizagem ativa, na
qual o cérebro da criança é constantemente convidado a analisar situações,
testar hipóteses e ajustar comportamentos.
Alguns estudos longitudinais observaram que crianças que se envolvem com
determinados tipos de jogos digitais apresentam melhorias em habilidades
cognitivas como memória operacional, atenção e resolução de problemas ao longo
do tempo.
Esses resultados ajudam a entender por que alguns pesquisadores passaram
a olhar para os jogos eletrônicos não apenas como entretenimento, mas também
como ambientes de treino cognitivo.
LIMITAR O TEMPO DE TELA RESOLVE A ANSIEDADE DA
CRIANÇA?
A resposta simples, rápida e direta é: não resolve.
Quando uma criança começa a demonstrar irritação, agitação ou
dificuldade para se desligar de jogos e telas, uma reação comum é pensar que o
problema está simplesmente no tempo de uso.
Organizar o tempo de tela realmente ajuda na rotina. Crianças precisam
de equilíbrio entre diferentes experiências do dia a dia. Sono adequado,
brincadeiras físicas, convivência com outras pessoas, atividades escolares e
momentos de lazer precisam coexistir de forma saudável.
Quando o uso de telas ocupa um espaço excessivo, outras áreas
importantes do desenvolvimento acabam ficando prejudicadas.
Mas existe um ponto importante que muitas vezes passa despercebido: reduzir
o tempo de tela, sozinho, não resolve a ansiedade da criança.
Ansiedade é uma resposta emocional ligada à percepção de ameaça,
preocupação ou insegurança diante de determinadas situações. Na infância, ela
pode aparecer em momentos como dificuldades escolares, mudanças na rotina,
conflitos sociais, separação dos pais ou desafios que a criança ainda não sabe
bem como enfrentar.
Nesse contexto, o videogame ou o celular muitas vezes acabam funcionando
como uma forma de distração ou de alívio momentâneo.
Quando o acesso à tela é reduzido sem que a origem da ansiedade seja
compreendida, o que acontece é apenas a retirada de uma estratégia que a
criança vinha utilizando para lidar com aquele desconforto. A emoção que
estava presente continua existindo.
Por isso, ao observar sinais de ansiedade, a pergunta mais importante
não é apenas quanto tempo a criança passa nas telas. A pergunta mais relevante
é o que está acontecendo na vida dessa criança fora delas.
Na psicoterapia infantil, grande parte do trabalho envolve ajudar a
criança a identificar o que está sentindo, entender as situações que disparam
essas emoções e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com esses desafios.
Muitas vezes, o videogame não é a causa da ansiedade. Ele é apenas o
lugar onde a criança encontrou um pequeno refúgio para lidar com algo que ainda
não sabe bem como resolver.
COMO EU USO JOGOS ELETRÔNICOS NA TERAPIA PARA
TRABALHAR ANSIEDADE
Na psicoterapia infantil, o brincar sempre foi uma das formas mais
importantes de comunicação da criança e os jogos eletrônicos fazem parte do universo
lúdico de muitas delas. Por isso, na clínica, os jogos podem se tornar uma
ferramenta interessante para observar e trabalhar diretamente algumas reações
típicas da ansiedade.
Quando uso um jogo durante a sessão, não estou apenas oferecendo um momento de diversão. Eu observo atentamente como a criança reage diante dos desafios do jogo. O que acontece quando ela perde uma fase? Ela tenta novamente? Fica irritada? Diz que não consegue? Quer desistir?
Algumas crianças ficam muito tensas quando erram. Outras começam a dizer
frases como “eu sou ruim nisso” ou “eu nunca vou conseguir”. Há também aquelas
que evitam partes mais difíceis do jogo porque têm medo de errar ou fracassar.
Quando essas situações aparecem, ajudo a criança a perceber quais
pensamentos passaram pela cabeça naquele momento e o que ela sentiu. A partir
daí, começamos a explorar novas formas de lidar com o desafio.
Eu incentivo a criança a parar por alguns segundos, observar melhor o
que está acontecendo no jogo e pensar em outra estratégia antes de tentar
novamente.
Também uso o jogo para trabalhar persistência. Quando a criança perde
uma fase várias vezes, conversamos sobre o que pode ser ajustado.
Às vezes é prestar mais atenção em um detalhe do cenário, às vezes é
tentar um caminho diferente dentro do jogo.
Além disso, o videogame facilita algo que muitas crianças acham difícil
em uma conversa direta: falar sobre o que estão sentindo. Enquanto jogam, elas
costumam se sentir mais à vontade para comentar o que pensaram quando algo deu
errado ou quando sentiram vontade de desistir.
COMO EU USARIA VIDEOGAME PARA AJUDAR MEU FILHO
Se meu filho gostasse de videogame, eu não começaria proibindo. Eu
começaria me aproximando.
Os jogos fazem parte do universo de muitas crianças hoje e quando um
adulto demonstra interesse por aquilo que é importante para a criança, o
diálogo fica muito mais fácil.
Em vez de tratar o jogo apenas como algo que precisa ser controlado, eu
começaria perguntando sobre ele. Que jogo é esse? O que precisa fazer para
passar de fase? Qual parte é mais difícil?
Quando um pai ou uma mãe demonstra curiosidade genuína, a criança
percebe que está sendo levada a sério. Esse tipo de conversa cria um espaço
de conexão e facilita muito os combinados sobre o uso.
Também estabeleceria regras simples e previsíveis sobre quando o
videogame pode ser usado. Horários definidos ajudam a criança a entender que
existe um momento para jogar e outros momentos para tarefas, descanso ou
convivência familiar.
Outro ponto importante é prestar atenção no tipo de uso que está sendo
feito. Existe diferença entre passar horas assistindo vídeos e interagir em um
jogo.
Nos jogos, a criança precisa tomar decisões, prestar atenção no que está
acontecendo na tela, pensar em estratégias e se adaptar quando algo dá errado.
Por fim, cada criança reage de um jeito diferente ao uso de tecnologia.
Quando surgem dúvidas sobre comportamento, limites ou organização da rotina,
buscar orientação profissional pode ajudar.
Com informação adequada e acompanhamento quando necessário, a tecnologia
pode ser integrada à rotina de forma mais saudável e equilibrada para toda a
família.
TERAPIA PARA LIDAR COM ANSIEDADE INFANTIL
