Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) na infância

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) na infância

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, os transtornos de ansiedade estão entre os problemas de saúde mental mais frequentes na infância e adolescência, afetando entre 10 e 20% das crianças em todo o mundo. O TAG é considerado um dos mais prevalentes entre eles e também um dos mais difíceis de identificar, porque não tem um gatilho único e visível. A preocupação muda de assunto, mas o estado de alerta permanece o mesmo, e isso faz com que o transtorno seja confundido, durante anos, com jeito de ser, perfeccionismo ou excesso de responsabilidade.

 

O QUE É TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG) NA INFÂNCIA?

O Transtorno de Ansiedade Generalizada é caracterizado por preocupação excessiva, difícil de controlar, presente na maior parte dos dias e distribuída por várias áreas da vida ao mesmo tempo. Na infância, isso significa uma criança que se preocupa com o desempenho na escola, com a saúde dos pais, com o que pode dar errado numa viagem de fim de semana e com o colega que talvez tenha ficado bravo no recreio, às vezes tudo isso no mesmo dia. Quando uma preocupação se resolve, a mente já criou outra e o estado de alerta é constante.

A psicóloga Wendy Silverman, referência em ansiedade infantil, aponta que o TAG costuma ser identificado mais tarde do que outros transtornos de ansiedade justamente porque não há um gatilho único e visível, como existe na ansiedade de separação ou numa fobia, por exemplo. Muitas famílias chegam ao consultório depois de uma sequência de consultas médicas sem resultado: a criança diz que a barriga dói, que a cabeça incomoda, que está cansada mesmo depois de dormir a noite inteira. O que muitos pais não sabem é que a ansiedade também se manifesta no corpo.

Toda criança se preocupa de vez em quando, e isso faz parte do desenvolvimento. Para o diagnóstico, o DSM-5 exige a presença de preocupação excessiva na maior parte dos dias por pelo menos seis meses, além de pelo menos um sintoma associado. O limiar diagnóstico em crianças é menor do que em adultos justamente porque o impacto sobre o desenvolvimento pode ser significativo mesmo com menos sintomas.

 

PRINCIPAIS SINTOMAS DO TAG

Associado a essa preocupação, deve estar presente pelo menos um dos seguintes sintomas, também na maioria dos dias nesse período:

  1. Inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele
  2. Fatigabilidade
  3. Dificuldade de concentração ou brancos mentais
  4. Irritabilidade
  5. Tensão muscular
  6. Distúrbio do sono

 O que os torna clinicamente relevantes é a frequência, a duração e a associação com uma preocupação que não cede. 


COMO SE MANIFESTAM OS SINTOMAS DE TAG

Outro ponto que merece a atenção dos pais é que os sinais e sintomas do TAG na infância aparecem no corpo, no comportamento e no funcionamento geral da criança, e muitas vezes são confundidos com outras condições ou simplesmente atribuídos ao jeito de ser. Observe:

  • Preocupações Excessivas: A criança pode ficar constantemente preocupada com o futuro, desde o desempenho na escola até preocupações mais vagas, como algo ruim acontecendo com a família. Essas preocupações geralmente não têm causa clara e são difíceis de controlar.
  • Dificuldade para Dormir: As preocupações podem invadir o momento de descanso, fazendo com que a criança tenha dificuldade para pegar no sono ou acorde várias vezes durante a noite.
  • Dores Físicas sem motivo aparente: Crianças com TAG podem sentir frequentemente dores de barriga, de cabeça ou outros desconfortos físicos, que muitas vezes não têm uma explicação médica.
  • Irritabilidade e Agitação: Devido ao estresse constante, a criança pode ficar mais irritada ou impaciente com facilidade, demonstrando maior sensibilidade a pequenas frustrações do dia a dia.
  • Medo de Fracassar: Medo de errar ou de não ser boa o suficiente pode ser um sintoma muito comum. Ela pode evitar certas atividades ou sentir que precisa ser perfeita em tudo que faz, o que gera mais ansiedade.

Funciona como um ciclo em que o reasseguramento constante é um dos primeiros sinais.  A criança pergunta a mesma coisa várias vezes, mesmo depois de receber a resposta. A isso se soma a dificuldade de relaxar mesmo em momentos de lazer ou férias, a irritabilidade que costuma ser confundida com mau humor ou teimosia, as dores de barriga ou de cabeça sem causa médica encontrada, especialmente em dias de mais pressão, a dificuldade de concentração porque parte da energia mental está ocupada com a preocupação, a antecipação constante de cenários ruins antes mesmo de uma situação acontecer e a dificuldade para dormir, com a mente ainda repassando o dia ou já adiantando o seguinte.

 

CAUSAS E FATORES DE RISCO

O TAG tem origem multifatorial. Há um componente genético relevante: crianças com pais ansiosos têm quase quatro vezes mais chance de desenvolver o transtorno. Do ponto de vista neurobiológico, o TAG está associado a uma regulação alterada do sistema de resposta ao estresse, com maior sensibilidade a ameaças e menor capacidade de inibir preocupações.

Entre os fatores ambientais, destacam-se experiências de instabilidade na infância, como mudanças frequentes de rotina, conflitos familiares, superproteção parental, bullying e situações de perda ou separação.

A intolerância à incerteza é considerada um mecanismo central do transtorno: a criança com TAG tem dificuldade acentuada em tolerar situações em que o resultado não é previsível, e isso alimenta continuamente o ciclo de preocupação.

 

COMO O TAG NÃO TRATADO IMPACTA A VIDA DA CRIANÇA?

Quando não identificado e tratado, o TAG interfere em áreas importantes do desenvolvimento infantil. Na escola, a preocupação constante compromete a concentração, o rendimento e a participação em atividades em grupo. O medo de errar pode levar à paralisia diante de provas e apresentações, mesmo quando a criança estudou e se preparou. O rendimento cai por conta do perfeccionismo e do excesso de ansiedade. Nas relações sociais, o medo de ser criticada pelos colegas pode dificultar a formação de vínculos e a adaptação no ambiente escolar. Em casa, a irritabilidade e a necessidade constante de reasseguramento afetam a dinâmica familiar e costumam gerar desgaste para todos.

A longo prazo, crianças com TAG não tratado têm maior risco de desenvolver depressão e outros transtornos de ansiedade. Estudos mostram que mais de 90% das crianças com TAG apresentam pelo menos uma comorbidade associada.


COMO FUNCIONA O TRATAMENTO PARA TAG INFANTIL

A Terapia Cognitivo Comportamental é o tratamento com maior evidência científica para o TAG na infância e adolescência. O trabalho é estruturado em torno de dois eixos principais: identificar os pensamentos que alimentam o ciclo de preocupação e desenvolver habilidades para responder a eles de outra forma, com foco especial na tolerância à incerteza e na regulação emocional.

Na prática com crianças, isso acontece de forma adaptada à faixa etária, com recursos lúdicos integrados às estratégias clínicas. Jogos, desenho e narrativa são usados como ferramentas para acessar o que a criança ainda não consegue colocar em palavras, trabalhar a tolerância à incerteza e treinar estratégias de regulação emocional.

A participação da família faz parte do processo. Os pais recebem orientação para não entrarem, sem perceber, no ciclo da ansiedade da criança, já que respostas de reasseguramento excessivo, embora bem-intencionadas, costumam manter o padrão em vez de reduzi-lo. Com o tempo, mudanças como mais autonomia, menor necessidade de confirmação constante, maior flexibilidade emocional e uma rotina mais leve se tornam visíveis. Quanto mais cedo o acompanhamento começa, maior a janela de desenvolvimento disponível para que essas habilidades se consolidem.

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