ANSIEDADE DE DESEMPENHO NA INFÂNCIA: O MEDO DE ERRAR, A AUTOCRÍTICA E O JEITO CERTO DE ELOGIAR
O medo de errar é um dos sinais mais comuns da
ansiedade de desempenho na infância, e também um dos mais difíceis de
identificar, justamente porque costuma aparecer disfarçado de dedicação.
A criança que estuda mais do que precisa, que
refaz exercícios que já estão certos, que evita atividades novas e que nunca
está satisfeita com o próprio resultado pode estar, na verdade, respondendo a
um estado interno de alerta constante em relação ao desempenho. Crianças com
ansiedade de desempenho atribuem sua preocupação à necessidade de fazer bem
e ao medo de cometer erros, e essa preocupação vai muito além do que a situação
justifica. Ou seja, o problema está na intensidade e na frequência da resposta,
e não na exigência em si.
O que acontece no corpo e na mente durante uma situação de desempenho?
Pesquisas da Universidade de Harvard mostram
que o estresse crônico reduz a capacidade de concentração e prejudica o
processamento de informações. Dessa forma, a criança que mais se preocupa com a
prova, por exemplo, é a que tem mais dificuldade de acessar o que sabe, criando
um ciclo que reforça exatamente o medo que tentava evitar.
No dia a dia, a ansiedade de desempenho pode
aparecer como recusa em participar de atividades competitivas, choro ou
explosão emocional diante de resultados abaixo do esperado, procrastinação
intensa antes de tarefas difíceis, comparação frequente com colegas e busca
constante por confirmação dos pais e professores.
Um detalhe importante: ansiedade de desempenho
se apresenta em crianças com bom e com baixo desempenho escolar. A nota alta
não descarta o problema. Em alguns casos, ela é exatamente a consequência do
nível de pressão que a criança exerce sobre si mesma.
A
AUTOCRÍTICA QUE O DESEMPENHO NUNCA CONSEGUE SATISFAZER
Quando o esforço do seu filho nunca parece suficiente para ele mesmo, é hora de prestar atenção. Existe uma diferença importante entre a criança que quer melhorar e a criança que sente que nunca é boa o suficiente. A primeira tem uma relação saudável com o desempenho: ela busca crescer, tolera os erros como parte do caminho e consegue reconhecer quando fez bem. A segunda está presa num ciclo de autocrítica que o desempenho, por melhor que seja, raramente consegue interromper.
Esse segundo perfil é característico da
ansiedade de desempenho. A criança estrutura sua autoestima quase inteiramente
sobre o resultado do que produz, e dessa forma qualquer resultado abaixo do
ideal interno, que costuma ser muito alto, é vivido como uma ameaça à própria
identidade.
Isabel tinha 10 anos quando a mãe percebeu o
padrão. A menina chegava da escola, mostrava um trabalho que havia recebido
elogios da professora e imediatamente apontava três coisas que “poderia ter
feito melhor”. Quando a mãe dizia que o trabalho estava lindo, Isabel
respondia: “Mas eu errei aqui, e aqui ficou torto, e aqui eu podia ter colocado
mais detalhes”. O elogio nunca chegava ao destino.
O que parecia exigência saudável era, na
prática, um sinal de que Isabel havia aprendido a olhar para a própria vida
exclusivamente pelos olhos do que faltava. Nesses casos, o caminho terapêutico
é ajudá-la a construir uma relação com o esforço que seja independente do
resultado perfeito.
Você reconhece esse padrão no seu filho?
O ELOGIO
QUE PODE ESTAR ALIMENTANDO A ANSIEDADE
A maioria dos pais elogia o filho de três
formas: “você é inteligente”, “você é incrível” ou “estou muito orgulhoso de
você.” Essas frases vêm de um lugar de amor genuíno. No entanto, algumas
pesquisas mostram que elogios centrados na identidade da criança e não no
processo, podem gerar exatamente o oposto do que os pais desejam.
Carol Dweck, pesquisadora da Universidade de
Stanford, demonstrou que crianças elogiadas pela inteligência tendem a evitar
desafios por medo de parecer menos inteligentes quando erram. Ou seja, o elogio
que pretendia motivar passa a funcionar como uma armadilha: a criança protege a
identidade de “inteligente” evitando situações onde pode falhar. Logo, a
solução está em deslocar o elogio da identidade para o processo
Frase como “Eu percebi que você tentou várias
vezes antes de conseguir. Isso é o que importa.” Ou “Você ficou nessa parte
difícil sem desistir. Isso me impressionou.”, costumam trazer resultados
melhores. Esses elogios constroem uma relação com o esforço que permanece
estável mesmo quando o resultado é ruim.
Além disso, quando a criança chega com
resultado abaixo do esperado, ajude-a a nomear o que sentiu, dizendo algo como:
“Eu sei que você ficou frustrado. O que foi mais difícil dessa vez?” Depois,
redirecione para o processo: “O que você acha que pode ser diferente na próxima
tentativa?”. Essa sequência mantém a criança no papel de protagonista do
próprio aprendizado, e não de vítima do próprio resultado.
Em resumo: Fale sobre
o que a criança fez, e não sobre quem ela é. Foque no esforço, na estratégia e
na persistência. Celebre o processo mesmo quando o resultado não foi o
esperado. Uma mudança pequena no jeito de elogiar pode mudar significativamente
a relação do seu filho com o desempenho ao longo do tempo.
A COPA DO
MUNDO COMO ESPELHO DA ANSIEDADE DE DESEMPENHO
A Copa do Mundo é um dos poucos momentos em
que a ansiedade de desempenho aparece completamente descoberta, sem a mediação
que a escola ou o cotidiano impõem.
Quando a criança torce, ela está completamente
entregue a um resultado que não controla. E o sistema nervoso ansioso, que
funciona em alerta constante em relação ao desempenho, responde a esse estado
com a mesma intensidade que responde a uma prova difícil ou a uma apresentação
importante: coração acelerado, estômago apertado, dificuldade de sentar,
pensamentos catastróficos sobre o que vai acontecer se o time perder. A diferença
é que durante o jogo, os pais veem isso acontecer em tempo real.
A Copa do Mundo é uma oportunidade genuína
para observar como seu filho lida com situações de pressão e resultado incerto,
e para praticar as respostas que também vão funcionar fora do campo.
Quando o Brasil tomar um gol, em vez de reagir
com frustração, tente nomear junto com ele: “Puxa, que momento difícil. O que
você está sentindo agora?” Quando o jogo terminar, independentemente do
resultado, converse sobre o esforço: “Você viu como eles continuaram tentando
mesmo quando estava difícil?”
Essas conversas parecem simples, mas ensinam à
criança uma relação com o desempenho que vai muito além do futebol.
SEU FILHO CHORA QUANDO O BRASIL PERDE? ISSO
DIZ MAIS SOBRE A ANSIEDADE DELE DO QUE SOBRE O FUTEBOL.
A reação da criança durante um jogo de futebol
é um dos espelhos mais honestos da forma como ela lida com resultado e
frustração no cotidiano. A criança com ansiedade de desempenho investe
emocionalmente de forma intensa em situações de resultado incerto, e o jogo
de futebol é uma dessas situações por excelência.
O time vira uma extensão do próprio
desempenho: quando o Brasil marca, ela sente o alívio de quem tirou uma nota
boa. Quando o Brasil sofre um gol, ela sente o desconforto de quem errou na
prova.
A questão não é a intensidade da torcida. É
bonito ver crianças que torcem com intensidade. A questão é o que acontece
quando o resultado não é o esperado: a criança consegue continuar assistindo?
Consegue nomear o que está sentindo? Consegue, após o jogo, conversar sobre o
que aconteceu sem que a frustração domine completamente a experiência?
Quando a resposta é não, esses momentos se
tornam uma oportunidade prática para trabalhar a tolerância à frustração. Em
vez de minimizar a reação do filho, ajude-o a nomear o que está sentindo,
dizendo algo como: “Eu sei que ficou frustrado. É muito chato quando acontece
assim. O que você está sentindo agora?”
Só isso já faz diferença.
O QUE ACONTECE NA PRIMEIRA SESSÃO DE PSICOLOGIA INFANTIL?
Você já teve essa dúvida? Ela é bem recorrente e talvez te
trave na hora de dar o primeiro passo. O que faz sentido, já que, ninguém quer
levar o filho para algo que não entende.
Não existe uma regra, mas a minha primeira
sessão começa com os pais e com a criança presente. É um momento para que eu
possa ter o primeiro contato como vocês e coletar algumas datas relevantes.
Em um outro momento da sessão, fico só com os
responsáveis para que eles possam contar o que estão observando, quando os
comportamentos começaram, o que já tentaram e o que os preocupa. Esse histórico
é essencial para que o processo terapêutico comece com clareza.
A criança entra depois sozinha, e o que
acontece em seguida depende muito da faixa etária. Com crianças pequenas
trabalho predominantemente através do brincar, do desenho, da construção e da
narrativa. Não existe um interrogatório. Não existe pressão para falar. O espaço
terapêutico é estruturado de forma que a criança se comunique da maneira que
for natural para ela, e é dentro dessas comunicações que o trabalho clínico
acontece.
O sigilo é garantido. O que a criança
compartilha dentro do consultório é confidencial, inclusive em relação aos
pais, com exceção de situações que envolvam risco à segurança. Isso não
significa que os pais ficam de fora do processo, muito pelo contrário. Sessões
de orientação parental acontecem de forma regular, porque o contexto familiar é
parte fundamental do que está sendo trabalhado.
Não existe um número fixo de sessões. O ritmo
é determinado pela criança, pela demanda e pelo processo. O que os pais
costumam relatar, independentemente do tempo de acompanhamento, é que as
mudanças começam a aparecer antes do que esperavam.
Se você tem dúvidas sobre como funciona ou se
o momento é o certo para buscar ajuda, me chama no WhatsApp.
