Transtorno de Ansiedade Generalizada na infância: quando a preocupação não desliga


O que vamos explorar hoje?
- O que é o TAG e por que ele é um dos transtornos de ansiedade mais difíceis de identificar na infância
- Os sinais que diferenciam uma preocupação passageira de um quadro clínico
- Como o TAG aparece no corpo, no comportamento e nas relações da criança
- Como usar jogos como o Dixit para abrir conversas que a criança não consegue iniciar sozinha
- O que muda quando existe acompanhamento profissional

Seu filho vive no modo "e se"? "E se eu errar na prova?", "e se meu amigo não quiser mais brincar comigo?", "e se tiver chover no dia da viagem?". Quando esse tipo de pensamento aparece na maior parte dos dias, sobre assuntos muito diferentes, vale a pena prestar atenção.

O Transtorno de Ansiedade Generalizada, ou TAG, é caracterizado por uma preocupação excessiva e difícil de controlar, presente na maior parte dos dias, que se estende por várias áreas da vida ao mesmo tempo. A psicóloga Wendy Silverman, referência em ansiedade infantil, aponta que o TAG costuma ser identificado mais tarde do que outros transtornos de ansiedade, porque não há um gatilho único e visível, como existe na ansiedade de separação ou numa fobia, por exemplo.

A preocupação muda de um assunto para outro, mas o estado de alerta continua o mesmo. Por isso, muitas vezes o TAG é confundido com perfeccionismo, excesso de responsabilidade ou só "um jeito de ser" da criança. Os pais notam que o filho é caprichoso, dedicado, atento aos detalhes, sem perceber que, por trás disso, existe um sistema nervoso trabalhando em alerta constante.

Outro ponto importante é que muitas crianças chegam ao consultório depois de uma sequência de consultas médicas sem resultado. Dizem que a barriga dói, que a cabeça incomoda, que estão cansadas, mesmo depois de dormir a noite inteira. O que muitos pais não sabem é que a ansiedade também se manifesta no corpo.

Lucas tem 9 anos e a mãe diz que ele "nunca desliga". Se preocupa com o trabalho da escola que pode não ter ficado bom o suficiente, com o colega que talvez ficou bravo com ele na hora do recreio ou se vai ter algo diferente na rotina do fim de semana. Quando uma preocupação está resolvida, a cabeça cria imediatamente outra. E muitas vezes, o primeiro sinal desse estado de alerta constante não vem em forma de palavra. Vem em sintomas físicos sem explicação médica: dor de barriga, dor de cabeça ou cansaço sem explicação, mesmo depois de uma noite de sono completa.

  

7 SINAIS DE QUE A PREOCUPAÇÃO DO SEU FILHO PASSOU DE NORMAL PARA TAG

Toda criança se preocupa de vez em quando, e isso faz parte do desenvolvimento. O que diferencia uma preocupação passageira de um quadro de Transtorno de Ansiedade Generalizada é a combinação de vários sinais ao mesmo tempo, presentes na maior parte dos dias, por seis meses ou mais.

O primeiro sinal é o reasseguramento constante, quando a criança pergunta a mesma coisa várias vezes, mesmo já tendo recebido a resposta. O segundo é a dificuldade de relaxar, mesmo em momentos de lazer ou férias. O terceiro é a irritabilidade sem motivo aparente, que costuma ser confundida com mau humor ou teimosia.

O quarto sinal é a dor de barriga ou dor de cabeça sem causa médica encontrada, especialmente em dias de mais pressão ou expectativa. O quinto é a dificuldade de concentração, porque parte da energia mental está ocupada com a preocupação. O sexto é a antecipação de cenários ruins antes mesmo de uma situação acontecer, e o sétimo é a dificuldade para dormir, com a mente ainda repassando o dia ou já adiantando o seguinte.

Nenhum desses sinais, isolado, indica TAG, mas a combinação de vários, de forma persistente, é o que costuma chamar atenção na avaliação clínica.

 

GUIA PRÁTICO: USANDO O DIXIT PARA TRANSFORMAR PREOCUPAÇÃO EM CONVERSA

Se você já tentou perguntar para seu filho o que está acontecendo e a resposta foi "nada" ou "tô bem", você sabe como essa conversa costuma terminar antes de começar. Muitas vezes crianças com TAG sabem que algo está pesado, mas não conseguem nomear o quê. Perguntar direto o que está acontecendo não funciona. Por isso, o Dixit pode ajudar, e o motivo está na forma como o jogo funciona.

Dixit é um jogo de tabuleiro de cartas ilustradas, com imagens abstratas sem nenhum texto nelas. Na regra original, cada jogador recebe seis cartas, escolhe uma e diz uma palavra ou frase que a descreva, sem mostrar a carta. Os outros jogadores tentam adivinhar qual carta da mesa é aquela, usando suas próprias cartas como pistas falsas. Fora essa regra original, o jogo pode ser usado como ferramenta de conversa.

Estratégia 1: reconhecimento. Espalhe algumas cartas na mesa e pergunte qual delas parece com o dia que seu filho teve hoje ou com o que ele está sentindo agora. Não apresse ele para escolher e deixe claro que não tem resposta certa. O objetivo aqui é só ele parar e perceber que tem alguma coisa que merece atenção.

Estratégia 2: simbolização. Quando a carta for escolhida, não peça uma explicação imediata. A imagem representa o que ele ainda não sabe dizer com palavras, e o jogo abre espaço para uma possível conversa importante. Em seguida, pergunte o que tem ali e peça para ele descrever o que vê.

Estratégia 3: expressão. Só depois que seu filho descreveu a carta, pergunte o que aquilo tem a ver com o que ele sentiu hoje ou com o momento dele. A ponte que a imagem criou facilita que ele chegue a uma palavra concreta, como medo, raiva ou cansaço, sem ter precisado responder a uma pergunta direta que antes travava.

O que evitar nesse momento: apressar a escolha da carta, corrigir a interpretação da criança e transformar o jogo num interrogatório disfarçado. O jogo só funciona enquanto continuar sendo jogo, pois no momento em que vira avaliação, ele fecha o que havia aberto.

Reconhecimento, simbolização e expressão: três estratégias pequenas, que cabem numa rodada de cinco minutos, e que ensinam o cérebro ansioso a passar pela própria preocupação em vez de só carregar ela em silêncio.

 

O QUE MUDA COM O ACOMPANHAMENTO PROFISSIONAL

Você já perdeu as contas de quantas vezes tentou tranquilizar seu filho e não funcionou?

A ansiedade infantil nem sempre aparece como medo intenso. Muitas vezes ela aparece como excesso de responsabilidade, necessidade de controle, irritação, dores físicas ou uma cabeça que parece nunca desligar, e esperar passar sozinho nem sempre resolve.

Na psicoterapia para TAG infantil, o trabalho é ajudar a criança a identificar os pensamentos que alimentam o ciclo de ansiedade e desenvolver habilidades para lidar com os desafios. O objetivo não é eliminar preocupações, e sim ensinar a criança a responder a elas de outro jeito.

O atendimento acontece de forma adaptada para a infância, com recursos lúdicos como jogos de tabuleiro, desenho e narrativa integrados às estratégias da Terapia Cognitivo Comportamental, além da participação da família quando necessário. Enquanto a criança aprende a reconhecer pensamentos ansiosos, tolerar incertezas e enfrentar situações importantes, os pais também recebem orientação para não entrarem sem perceber no ciclo da ansiedade. Com o tempo, muitas famílias começam a perceber mudanças como mais autonomia, menos necessidade de confirmação constante, mais segurança para enfrentar desafios, mais flexibilidade emocional e uma rotina mais leve.

Seu filho merece crescer com mais confiança e menos medo. Quando a ansiedade começa a ocupar espaço demais, a infância também começa a ficar mais limitada.

 

VOCÊ NÃO PRECISA TER TODAS AS RESPOSTAS. SÓ PRECISA ESTAR PRESENTE.

Tem uma cobrança silenciosa que pesa sobre quem acompanha uma criança ansiosa: a sensação de que existe sempre uma frase certa, capaz de apagar a preocupação na hora em que ela aparece. Quando essa frase não chega, ou não funciona, vem a culpa de não ter feito o suficiente.

Lidar com TAG não é sobre encontrar a resposta perfeita. É sobre continuar presente enquanto a criança vai, aos poucos, construindo as próprias ferramentas para lidar com o que sente, num ritmo que não cabe numa única conversa.

Se você já teve a sensação de estar sempre apagando incêndio, isso não significa que você errou. Significa que você está lidando com algo que de fato não tem solução simples, e que sua presença nesse processo importa mais do que a resposta certa.

 

INDICAÇÃO DE FILME: A ORIGEM DOS GUARDIÕES

A Origem dos Guardiões conta a história de um grupo de personagens, entre eles Papai Noel, o Coelho da Páscoa e a Fada do Dente, que se unem para proteger as crianças do vilão Breu, o Bicho Papão, conhecido como o Rei dos Pesadelos.

Breu se fortalece exatamente na medida em que o medo das crianças cresce, e perde força quando elas param de acreditar nele com tanta intensidade.

Essa lógica do filme funciona como uma metáfora simples para conversar sobre preocupação com crianças que vivem em estado de alerta constante. A preocupação, assim como Breu, cresce quando recebe atenção total e medo, e perde espaço quando a criança aprende a notá-la sem se entregar a ela por completo.

É um filme para assistir junto e conversar depois. Vale a pena perguntar coisas como "o que você achou que dava mais força para o Breu?" ou "tem algum momento em que você sente que dá mais força para suas preocupações, sem querer?" Recomendado a partir dos 6 anos, ótimo para assistir em família.

 

TERAPIA PARA TAG INFANTIL

Tem percebido que seu filho se preocupa com tudo, que raramente consegue relaxar de verdade e que nada do que você faz parece ser suficiente para acalmar?

Sou Laila Braga, psicóloga infantil com 15 anos de experiência, e faço atendimentos presencial em Vitória da Conquista e online para qualquer lugar do mundo. Estou sempre desenvolvendo meus estudos e práticas para ajudar crianças e famílias que convivem com o TAG e outros transtornos de ansiedade.

Trabalhar os ciclos de preocupação, a intolerância à incerteza e a regulação emocional é parte central da Terapia Cognitivo Comportamental, abordagem que sigo. Ajudar o seu filho a construir uma vida mais leve é uma das minhas missões.

A terapia pode ser o início de uma mudança real. Mande uma mensagem e agende a sessão inicial.

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