O que vamos explorar hoje?
- Como diferenciar comportamentos do TDAH e da ansiedade infantil, entendendo por que eles são tão confundidos.
- Por que esses dois transtornos aparecem juntos com tanta frequência e como um pode intensificar o outro.
- Como sinais como desatenção, sono ruim, procrastinação e explosões emocionais podem fazer parte desse quadro.
- O que os pais podem fazer em casa para oferecer mais previsibilidade, segurança e favorecer a regulação emocional.
O problema é que os dois transtornos produzem
comportamentos parecidos por fora e por razões completamente diferentes por
dentro. A criança que não consegue parar quieta, que se distrai com facilidade,
que tem dificuldade de terminar tarefas pode estar apresentando desatenção
característica do TDAH ou pode estar com o sistema nervoso sobrecarregado pela
ansiedade.
Quando os dois estão presentes ao mesmo tempo,
o quadro fica ainda mais complexo. A hiperatividade do TDAH pode mascarar a
ansiedade que aparece como agitação, irritabilidade e dificuldade de regulação
emocional.
O que diferencia os dois, na prática clínica,
é a origem do comportamento.
No TDAH, a dificuldade de atenção vem de uma
disfunção no sistema de regulação do foco. Na ansiedade, a dificuldade de
atenção vem de um sistema nervoso ocupado demais monitorando ameaças para
conseguir se concentrar numa tarefa.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA O TRATAMENTO?
Porque uma intervenção que funciona bem para
TDAH sem ansiedade pode não funcionar, ou até piorar a situação, quando a
ansiedade está presente, mas não identificada. Por isso, o diagnóstico
diferencial cuidadoso, feito por uma profissional de saúde mental, é o que
define o caminho terapêutico adequado para cada criança.
Uma das situações que aparece com frequência
no consultório é a família que chega com diagnóstico de TDAH estabelecido, mas
com a sensação de que algo ainda não estava sendo visto. A criança faz
tratamento, há alguma melhora, mas a agitação continua intensa, o sono é ruim,
as explosões emocionais persistem.
Quando se aprofunda a avaliação, em muitos
desses casos está presente um quadro de ansiedade que havia passado
despercebido, porque os comportamentos ansiosos dessa criança específica se
pareciam muito com os comportamentos do TDAH. Tratar o TDAH sem identificar a
ansiedade associada é tratar metade do quadro.
A APRESENTAÇÃO MAIS IGNORADA
O TDAH tem três apresentações clínicas:
predominantemente hiperativo, predominantemente desatento e combinado. O
primeiro é o que a maioria das pessoas imagina quando ouve o diagnóstico: a
criança que não para. O segundo é muito menos reconhecido e, por isso, muito
mais tardio no diagnóstico.
A criança com TDAH predominantemente desatento
parece, de fora, sonhadora. Está sempre "no mundo da lua", demora
para responder quando chamada, não consegue terminar tarefas e tem dificuldade
de organizar o próprio tempo. Muitas vezes é descrita como calma, lenta ou
desinteressada.
A criança desatenta com ansiedade comórbida
frequentemente desenvolve um padrão de evitação de tarefas, porque começa a
associar o esforço cognitivo ao fracasso. Ela sabe que vai se perder no
caminho, que vai esquecer alguma coisa, que vai ser cobrada por algo que não
conseguiu fazer, e dessa forma a estratégia que o cérebro encontra é
procrastinar ou se desligar antes de tentar.
Mariana tinha 10 anos quando chegou ao
consultório. A mãe a descrevia como uma menina que "viajava muito",
respondia perguntas com atraso, esquecia o material na escola todos os dias,
demorava horas para fazer tarefas simples e parecia sempre em outro mundo. Os
professores diziam que ela era inteligente, mas não se esforçava. O
diagnóstico, quando veio, foi TDAH desatento com ansiedade associada. Mariana
não era displicente. Ela estava tentando muito, e exatamente por isso estava
exausta.
O SONO COMO PRIMEIRO SINAL
O sono é um dos primeiros lugares onde a
ansiedade se revela e também um dos mais ignorados pelos pais, porque a
dificuldade para dormir parece, à primeira vista, um problema separado dos
outros.
A criança ansiosa tem dificuldade de desacelerar
o sistema nervoso central na hora de dormir. O cérebro que funcionou em alta
velocidade o dia inteiro não encontra um interruptor interno, e dessa forma ela
fica na cama em alerta, procurando estímulo. O silêncio da noite, que deveria
ser descanso, se torna o espaço onde as preocupações do dia ganham volume. É
quando ela começa a pensar no que vai acontecer amanhã, no que disse de errado
hoje, no que pode dar errado depois.
Rafael tinha 8 anos e nunca havia dormido
sozinho. A família havia normalizado isso ao longo do tempo, achando que era
jeito de ser. Quando chegou ao consultório, o quadro que emergiu foi TDAH
combinado com ansiedade generalizada. O sono ruim não era um hábito que
precisava ser corrigido com disciplina. Era um sintoma de um sistema que
precisava de suporte clínico para aprender a se regular.
Ou seja, quando uma criança não dorme bem de
forma persistente, a pergunta não é como fazer ela dormir. A pergunta é o
que o corpo dela está tentando comunicar.
QUANDO OS DOIS TRANSTORNOS ESTÃO PRESENTES AO MESMO TEMPO
Mateus chegou ao consultório com 9 anos
carregando uma pasta com relatórios. Três anos de queixas, de encaminhamentos,
de tentativas de intervenção que ajudavam um pouco, mas nunca resolviam.
Os pais descreviam um menino inteligente e
criativo que explodia com facilidade, não conseguia terminar nenhuma tarefa,
dormia mal, recusava atividades novas e tinha crises de choro intenso em
situações que pareciam pequenas para os adultos ao redor. Cada profissional
havia focado num sintoma diferente. Um havia tratado o comportamento. Outro
havia trabalhado o sono. Outro havia orientado os pais sobre limites. Todos
tinham razão sobre o que viam, mas nenhum havia visto o quadro completo.
A avaliação clínica mostrou TDAH combinado com
transtorno de ansiedade generalizada, dois transtornos presentes ao mesmo
tempo, cada um alimentando o outro. O TDAH tornava difícil para Mateus regular
o próprio comportamento e terminar o que começava. A ansiedade tornava qualquer
imprevisibilidade uma ameaça. Juntos, eles criavam um ciclo onde a dificuldade
de desempenho alimentava a ansiedade e a ansiedade aumentava a dificuldade de
desempenho.
O processo terapêutico foi conduzido com os
dois transtornos em mente ao mesmo tempo. Com Mateus, o trabalho foi construir
ferramentas de regulação emocional e desenvolver uma relação diferente com o
erro e com a tarefa difícil. Com os pais, o trabalho foi entender como as duas
condições interagiam no dia a dia e ajustar as respostas em casa para que o
ambiente deixasse de amplificar o que já estava difícil.
Seis meses depois, a professora pediu uma
reunião com os pais para dizer que Mateus havia apresentado um projeto
voluntário para a turma. Os pais chegaram à sessão seguinte com a foto da apresentação
no celular. Mateus ainda tem TDAH. Ainda tem ansiedade. O que mudou foi que ele
tem ferramentas para lidar com os dois, e uma família que entende o que está
vendo quando ele tem um dia difícil.
Casos fictícios baseados em situações
recorrentes no consultório. Identidades preservadas.
O QUE OS PAIS PODEM FAZER EM CASA
Durante o recesso, a rotina que segurava parte
da regulação vai embora com as aulas. Para crianças com TDAH e ansiedade, essa
quebra de estrutura é sentida no corpo antes de ser percebida pelos pais: mais
agitação, mais explosões, mais dificuldade de dormir, mais resistência a
qualquer combinado.
A coisa mais simples e mais eficaz que você
pode fazer é criar dois pontos fixos no dia, só dois, que funcionem como
âncoras enquanto a rotina escolar está suspensa. Pode ser o horário de acordar
e o horário da refeição principal. Pode ser um momento de atividade física e um
momento de leitura ou jogo em família antes de dormir. Não precisa ser
elaborado. Precisa ser consistente.
O sistema nervoso da criança com TDAH ou
ansiedade usa a previsibilidade como sinal de segurança, e nos dias sem
estrutura ele fica em busca de algo que diga que o ambiente está organizado.
Dois pontos fixos por dia já comunicam isso.
Por isso, o diagnóstico diferencial cuidadoso,
feito por uma profissional de saúde mental, é o que define o caminho
terapêutico adequado para cada criança.
TERAPIA PARA CRIANÇAS COM TDAH E ANSIEDADE
Tem percebido que a agitação, as explosões
emocionais ou a dificuldade de desempenho do seu filho não melhoram, mesmo com
todas as tentativas em casa?
Sou Laila Braga, psicóloga infantil, e faço
atendimentos presencial em Vitória da Conquista e online para qualquer lugar do
mundo. Estou sempre desenvolvendo meus estudos e práticas para ajudar famílias
que convivem com TDAH, ansiedade e as comorbidades que esses transtornos
trazem.
Trabalhar a regulação emocional, a relação com
o erro e o desempenho e os ciclos que o TDAH e a ansiedade criam juntos é parte
central da Terapia Cognitivo Comportamental, abordagem que sigo. Ajudar o seu
filho a construir ferramentas reais para lidar com esses desafios é uma das
minhas missões.
A terapia pode ser o início de uma mudança
concreta. Mande uma mensagem e agende a sessão inicial.
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