TDAH e ansiedade infantil: dois transtornos que andam juntos e são confundidos o tempo todo


O que vamos explorar hoje?
    - Como diferenciar comportamentos do TDAH e da ansiedade infantil, entendendo por que eles são tão confundidos.
    - Por que esses dois transtornos aparecem juntos com tanta frequência e como um pode intensificar o outro.
    - Como sinais como desatenção, sono ruim, procrastinação e explosões emocionais podem fazer parte desse quadro.
    - O que os pais podem fazer em casa para oferecer mais previsibilidade, segurança e favorecer a regulação emocional.


Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção, cerca de 3% a 5% das crianças no mundo têm TDAH, e 70% delas apresentam pelo menos uma comorbidade associada. Transtornos de ansiedade estão entre as comorbidades mais comuns nessa população, presentes em até 40% dos casos, de acordo com pesquisas publicadas no periódico científico Archives of Neurology.

O problema é que os dois transtornos produzem comportamentos parecidos por fora e por razões completamente diferentes por dentro. A criança que não consegue parar quieta, que se distrai com facilidade, que tem dificuldade de terminar tarefas pode estar apresentando desatenção característica do TDAH ou pode estar com o sistema nervoso sobrecarregado pela ansiedade.

Quando os dois estão presentes ao mesmo tempo, o quadro fica ainda mais complexo. A hiperatividade do TDAH pode mascarar a ansiedade que aparece como agitação, irritabilidade e dificuldade de regulação emocional.

O que diferencia os dois, na prática clínica, é a origem do comportamento.

No TDAH, a dificuldade de atenção vem de uma disfunção no sistema de regulação do foco. Na ansiedade, a dificuldade de atenção vem de um sistema nervoso ocupado demais monitorando ameaças para conseguir se concentrar numa tarefa.


POR QUE ISSO IMPORTA PARA O TRATAMENTO?

Porque uma intervenção que funciona bem para TDAH sem ansiedade pode não funcionar, ou até piorar a situação, quando a ansiedade está presente, mas não identificada. Por isso, o diagnóstico diferencial cuidadoso, feito por uma profissional de saúde mental, é o que define o caminho terapêutico adequado para cada criança.

Uma das situações que aparece com frequência no consultório é a família que chega com diagnóstico de TDAH estabelecido, mas com a sensação de que algo ainda não estava sendo visto. A criança faz tratamento, há alguma melhora, mas a agitação continua intensa, o sono é ruim, as explosões emocionais persistem.

Quando se aprofunda a avaliação, em muitos desses casos está presente um quadro de ansiedade que havia passado despercebido, porque os comportamentos ansiosos dessa criança específica se pareciam muito com os comportamentos do TDAH. Tratar o TDAH sem identificar a ansiedade associada é tratar metade do quadro.

 

A APRESENTAÇÃO MAIS IGNORADA

O TDAH tem três apresentações clínicas: predominantemente hiperativo, predominantemente desatento e combinado. O primeiro é o que a maioria das pessoas imagina quando ouve o diagnóstico: a criança que não para. O segundo é muito menos reconhecido e, por isso, muito mais tardio no diagnóstico.

A criança com TDAH predominantemente desatento parece, de fora, sonhadora. Está sempre "no mundo da lua", demora para responder quando chamada, não consegue terminar tarefas e tem dificuldade de organizar o próprio tempo. Muitas vezes é descrita como calma, lenta ou desinteressada.

A criança desatenta com ansiedade comórbida frequentemente desenvolve um padrão de evitação de tarefas, porque começa a associar o esforço cognitivo ao fracasso. Ela sabe que vai se perder no caminho, que vai esquecer alguma coisa, que vai ser cobrada por algo que não conseguiu fazer, e dessa forma a estratégia que o cérebro encontra é procrastinar ou se desligar antes de tentar.

Mariana tinha 10 anos quando chegou ao consultório. A mãe a descrevia como uma menina que "viajava muito", respondia perguntas com atraso, esquecia o material na escola todos os dias, demorava horas para fazer tarefas simples e parecia sempre em outro mundo. Os professores diziam que ela era inteligente, mas não se esforçava. O diagnóstico, quando veio, foi TDAH desatento com ansiedade associada. Mariana não era displicente. Ela estava tentando muito, e exatamente por isso estava exausta.

 

O SONO COMO PRIMEIRO SINAL

O sono é um dos primeiros lugares onde a ansiedade se revela e também um dos mais ignorados pelos pais, porque a dificuldade para dormir parece, à primeira vista, um problema separado dos outros.

A criança ansiosa tem dificuldade de desacelerar o sistema nervoso central na hora de dormir. O cérebro que funcionou em alta velocidade o dia inteiro não encontra um interruptor interno, e dessa forma ela fica na cama em alerta, procurando estímulo. O silêncio da noite, que deveria ser descanso, se torna o espaço onde as preocupações do dia ganham volume. É quando ela começa a pensar no que vai acontecer amanhã, no que disse de errado hoje, no que pode dar errado depois.

Rafael tinha 8 anos e nunca havia dormido sozinho. A família havia normalizado isso ao longo do tempo, achando que era jeito de ser. Quando chegou ao consultório, o quadro que emergiu foi TDAH combinado com ansiedade generalizada. O sono ruim não era um hábito que precisava ser corrigido com disciplina. Era um sintoma de um sistema que precisava de suporte clínico para aprender a se regular.

Ou seja, quando uma criança não dorme bem de forma persistente, a pergunta não é como fazer ela dormir. A pergunta é o que o corpo dela está tentando comunicar.

 

QUANDO OS DOIS TRANSTORNOS ESTÃO PRESENTES AO MESMO TEMPO

Mateus chegou ao consultório com 9 anos carregando uma pasta com relatórios. Três anos de queixas, de encaminhamentos, de tentativas de intervenção que ajudavam um pouco, mas nunca resolviam.

Os pais descreviam um menino inteligente e criativo que explodia com facilidade, não conseguia terminar nenhuma tarefa, dormia mal, recusava atividades novas e tinha crises de choro intenso em situações que pareciam pequenas para os adultos ao redor. Cada profissional havia focado num sintoma diferente. Um havia tratado o comportamento. Outro havia trabalhado o sono. Outro havia orientado os pais sobre limites. Todos tinham razão sobre o que viam, mas nenhum havia visto o quadro completo.

A avaliação clínica mostrou TDAH combinado com transtorno de ansiedade generalizada, dois transtornos presentes ao mesmo tempo, cada um alimentando o outro. O TDAH tornava difícil para Mateus regular o próprio comportamento e terminar o que começava. A ansiedade tornava qualquer imprevisibilidade uma ameaça. Juntos, eles criavam um ciclo onde a dificuldade de desempenho alimentava a ansiedade e a ansiedade aumentava a dificuldade de desempenho.

O processo terapêutico foi conduzido com os dois transtornos em mente ao mesmo tempo. Com Mateus, o trabalho foi construir ferramentas de regulação emocional e desenvolver uma relação diferente com o erro e com a tarefa difícil. Com os pais, o trabalho foi entender como as duas condições interagiam no dia a dia e ajustar as respostas em casa para que o ambiente deixasse de amplificar o que já estava difícil.

Seis meses depois, a professora pediu uma reunião com os pais para dizer que Mateus havia apresentado um projeto voluntário para a turma. Os pais chegaram à sessão seguinte com a foto da apresentação no celular. Mateus ainda tem TDAH. Ainda tem ansiedade. O que mudou foi que ele tem ferramentas para lidar com os dois, e uma família que entende o que está vendo quando ele tem um dia difícil.

Casos fictícios baseados em situações recorrentes no consultório. Identidades preservadas.


O QUE OS PAIS PODEM FAZER EM CASA

Durante o recesso, a rotina que segurava parte da regulação vai embora com as aulas. Para crianças com TDAH e ansiedade, essa quebra de estrutura é sentida no corpo antes de ser percebida pelos pais: mais agitação, mais explosões, mais dificuldade de dormir, mais resistência a qualquer combinado.

A coisa mais simples e mais eficaz que você pode fazer é criar dois pontos fixos no dia, só dois, que funcionem como âncoras enquanto a rotina escolar está suspensa. Pode ser o horário de acordar e o horário da refeição principal. Pode ser um momento de atividade física e um momento de leitura ou jogo em família antes de dormir. Não precisa ser elaborado. Precisa ser consistente.

O sistema nervoso da criança com TDAH ou ansiedade usa a previsibilidade como sinal de segurança, e nos dias sem estrutura ele fica em busca de algo que diga que o ambiente está organizado. Dois pontos fixos por dia já comunicam isso.

Por isso, o diagnóstico diferencial cuidadoso, feito por uma profissional de saúde mental, é o que define o caminho terapêutico adequado para cada criança.

 

TERAPIA PARA CRIANÇAS COM TDAH E ANSIEDADE

Tem percebido que a agitação, as explosões emocionais ou a dificuldade de desempenho do seu filho não melhoram, mesmo com todas as tentativas em casa?

Sou Laila Braga, psicóloga infantil, e faço atendimentos presencial em Vitória da Conquista e online para qualquer lugar do mundo. Estou sempre desenvolvendo meus estudos e práticas para ajudar famílias que convivem com TDAH, ansiedade e as comorbidades que esses transtornos trazem.

Trabalhar a regulação emocional, a relação com o erro e o desempenho e os ciclos que o TDAH e a ansiedade criam juntos é parte central da Terapia Cognitivo Comportamental, abordagem que sigo. Ajudar o seu filho a construir ferramentas reais para lidar com esses desafios é uma das minhas missões.

A terapia pode ser o início de uma mudança concreta. Mande uma mensagem e agende a sessão inicial.

 

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