Validação social, performance e autoestima na adolescência

Validação social, performance e autoestima na adolescência


O que vamos explorar hoje?
- O que significa "farmar aura" e por que esse comportamento apareceu entre os adolescentes
- Os sinais de que a validação nas redes já está pesando na rotina do seu filho
- Por que o cérebro adolescente reage tanto a uma curtida
- A história de Enzo: como a terapia ajudou a reconstruir a vida dele fora da tela
- Como falar sobre redes sociais com seu filho sem virar o inimigo
- Uma indicação de série para assistir em família sobre esse tema


FARMAR AURA: QUANDO A VALIDAÇÃO NAS REDES VIRA OBSESSÃO

Seu filho filma quase tudo que faz, sai no meio de uma conversa para checar quantas curtidas a última postagem já tem, e muda de humor dependendo do que os outros comentam? Isso é busca por validação social, e é mais comum do que parece.

Entre os próprios adolescentes, esse tipo de comportamento até ganhou um nome: farmar aura. A expressão nasceu do universo dos games, onde farmar significa acumular pontos, e passou a descrever a busca por admiração, curtidas e reconhecimento nas redes. O problema não está em aparecer nas redes nem em gostar de compartilhar momentos. Está em quando o valor que o adolescente sente sobre si mesmo passa a depender diretamente da reação da audiência, e cada postagem vira uma tentativa de confirmar que ele é interessante o suficiente.

A psicóloga Simone Weckerlin Brustolin descreve que essa exposição constante pode levar crianças e adolescentes a um estado permanente de performance, em que existe a sensação de que é preciso produzir conteúdo o tempo todo, para o mundo inteiro, para conquistar aprovação. Isso muda a forma como um adolescente se relaciona com as próprias experiências. Em vez de viver o momento, ele já está calculando como aquilo vai ser recebido, e a diversão original de estar ali se perde no meio do cálculo.

Reconhecer esse padrão não significa que existe um problema. Significa entender que o seu filho pode estar buscando, através das redes, uma confirmação de valor que ele ainda não sabe encontrar sozinho.

 

5 SINAIS DE QUE A VALIDAÇÃO NAS REDES ESTÁ PESANDO DEMAIS

A adolescência pede tanto cuidado quanto a infância, especialmente quando o assunto é saúde mental, e um dos temas que mais aparece nesse recorte atualmente é a forma como a validação nas redes sociais tem pesado na vida dos adolescentes.

O primeiro sinal é a ansiedade quando uma postagem não recebe resposta rápida, com o adolescente checando o celular repetidamente em busca de curtidas ou comentários.

O segundo é o contraste entre o comportamento online e o comportamento offline, quando ele parece outra pessoa nas redes, mais confiante ou expansivo, e volta a ficar retraído fora delas.

O terceiro é o humor que varia de acordo com o desempenho das postagens, com dias inteiros manchados por um vídeo que "não bombou".

O quarto é a esquiva de situações em que pode ser ignorado ou criticado, evitando postar, comentar ou até participar de conversas em grupo por medo da reação.

O quinto é a perda de interesse em atividades que não têm plateia, como se algo só valesse a pena quando alguém está vendo.

Nenhum desses sinais isolado indica um problema. A combinação de vários deles, com frequência e intensidade que preocupam, é o que merece atenção.

Se esses sinais aparecem com frequência e estão afetando a forma como seu filho se relaciona, você pode conversar com uma psicóloga infantil  Falar no WhatsApp


POR QUE O CÉREBRO ADOLESCENTE REAGE TANTO A UMA CURTIDA

Existe uma razão biológica para o seu filho adolescente se importar tanto com uma curtida que, dois minutos atrás, ele nem sabia que existia. Durante a adolescência, o cérebro passa por um período de sensibilidade aumentada à aprovação social. Regiões ligadas à recompensa reagem com mais intensidade a sinais de aceitação do que em qualquer outra fase da vida, o que faz esse tipo de resposta ser parte do desenvolvimento nessa idade.

Um estudo de Lauren Sherman e equipe, da UCLA, publicado na revista Psychological Science, usou ressonância magnética para observar o cérebro de adolescentes enquanto viam fotos com diferentes quantidades de curtidas. Fotos com mais curtidas ativavam o núcleo accumbens, a mesma região que responde a comer chocolate ou ganhar dinheiro, um circuito de recompensa particularmente sensível durante a adolescência. A pesquisa também mostrou algo importante: os adolescentes curtiam mais as fotos que já tinham muitas curtidas, independentemente do conteúdo da imagem. A aprovação alheia influenciava diretamente a própria opinião deles sobre o que merecia ser aprovado.

É por isso que pedir para o seu filho "não ligar tanto" para curtidas costuma não funcionar. O cérebro dele, nessa fase, está configurado para responder mais forte a esse tipo de sinal do que o cérebro de um adulto responderia. Construir, junto com o adolescente, fontes de valor pessoal que não dependam de uma tela, como atividades, relações e conquistas que sustentem a autoestima por dentro, é o que realmente ajuda com o tempo.

O cérebro do seu filho está fazendo exatamente o que a adolescência pede: buscar aprovação com toda a intensidade que essa fase é capaz de gerar.

 

ELE SÓ SE SENTIA BEM QUANDO ALGUÉM COMENTAVA. ISSO MUDOU.

Enzo, 16 anos, chegou ao consultório porque os pais notaram que ele parecia ansioso sempre que postava algo e sumia por horas checando quantas pessoas tinham visto ou comentado. O sono estava prejudicado, as saídas com amigos foram diminuindo e as notas começaram a cair.

Numa das primeiras sessões, Enzo resumiu tudo numa frase só: sem o celular na mão, não sabia mais o que fazer consigo mesmo. Cada postagem era, na verdade, uma tentativa de confirmar que ele existia e que importava para alguém.

Um dos primeiros passos foi o automonitoramento: Enzo passou a anotar, num caderno, o momento exato em que sentia vontade de checar o celular depois de postar algo, e o que sentia no corpo pouco antes disso. Na segunda semana, ele percebeu que a vontade sempre vinha entre três e cinco minutos depois de postar, junto de um aperto no peito.

A partir daí, começamos a trabalhar a prevenção de resposta: em vez de checar o celular assim que a ansiedade aparecia, Enzo treinava esperar cinco minutos, depois dez, anotando o que sentia enquanto esperava. Na primeira vez que aguentou os dez minutos inteiros, ele mandou uma mensagem contando, por conta própria.

Com esse espaço criado, também trabalhamos a ação comprometida: identificar o que realmente importava para Enzo fora da tela e agir nessa direção mesmo com o desconforto ainda presente. Para ele, isso significava voltar a andar de skate com os amigos do bairro, dessa vez sem filmar cada manobra.

A mudança mais marcante aconteceu numa tarde comum, quando ele passou o dia inteiro andando de skate com os amigos e só foi lembrar do celular à noite. Ele mesmo notou: tinha passado horas sem pensar em postar nada.

Atualmente, Enzo ainda usa redes sociais como qualquer adolescente da idade dele, mas postar deixou de ser a forma principal de se sentir bem consigo mesmo.

Caso fictício baseado em situações recorrentes no consultório. Identidade preservada.

 

GUIA PARA PAIS: COMO FALAR SOBRE REDES SOCIAIS SEM VIRAR O INIMIGO

Conversar sobre redes sociais com um adolescente costuma esbarrar num equilíbrio difícil: cedo demais parece controle, tarde demais parece desinteresse. Um jeito mais leve de entrar nesse assunto pode fazer diferença tanto na abertura do seu filho quanto no resultado da conversa.

Primeiro, pergunte como ele se sente nas redes, não só o que ele faz nelas. A American Psychological Association recomenda conversas regulares sobre como as plataformas funcionam, para que o adolescente sinta segurança em contar experiências sem medo de julgamento, em vez de interrogatórios sobre tempo de tela ou conteúdo específico.

Segundo, evite o tom de fiscalização. Pesquisas mostram que abordagens colaborativas, em que o adolescente participa das decisões sobre o próprio uso das redes, geram mais abertura do que abordagens restritivas, que tendem a aumentar o medo e a esconder informação em vez de preveni-la.

Terceiro, ajude a construir identidade fora do ambiente digital. Atividades presenciais que dão ao adolescente uma sensação de competência e pertencimento fazem diferença, porque reduzem a necessidade de buscar essa mesma sensação só através da tela.

Nenhuma dessas estratégias vai fazer seu filho se desligar do celular da noite para o dia, mas juntas ajudam a manter você como uma pessoa em quem ele confia para falar sobre o assunto, e não alguém de quem ele esconde.

 

Indicação de série: Heartstopper

Na dica de hoje quero falar de Heartstopper, série britânica da Netflix baseada nos quadrinhos de Alice Oseman, com três temporadas disponíveis.

A série acompanha Charlie e Nick, dois adolescentes que constroem uma amizade que se transforma aos poucos em muito mais, enquanto lidam com bullying, insegurança e a pressão de ser aceito pelos colegas. O que diferencia Heartstopper é a forma leve e sensível como esses temas são tratados, sem transformar a experiência dos personagens numa tragédia constante.

Para adolescentes que também sentem que precisam se encaixar num molde para serem aceitos, ver essa história pode abrir espaço para conversas sobre identidade, pertencimento e autoestima fora dos padrões que as redes sociais costumam reforçar.

Disponível na Netflix. Classificação indicativa a partir dos 12 anos.

 

TERAPIA PARA ADOLESCENTES E A BUSCA POR VALIDAÇÃO NAS REDES

Tem percebido que seu filho parece existir mais online do que offline, muda de humor de acordo com as curtidas que recebe, ou já passou horas checando quantas pessoas comentaram uma postagem?

Sou Laila Braga, psicóloga infantil com 15 anos de experiência, e faço atendimentos presencial em Vitória da Conquista e online para qualquer lugar do mundo. Estou sempre desenvolvendo meus estudos e práticas para ajudar crianças e famílias que convivem com ansiedade infantil.

Trabalhar o reconhecimento dos gatilhos por trás da busca por validação, técnicas como automonitoramento e prevenção de resposta, e a construção de fontes de valor pessoal fora das redes é parte central da Terapia Cognitivo Comportamental, abordagem que sigo. Ajudar seu filho a se sentir bem consigo mesmo, sem depender de uma tela, é uma das minhas missões.

A terapia pode ser o início de uma mudança real. Mande uma mensagem e agende a sessão inicial.


Se esses sinais aparecem com frequência e estão afetando a forma como seu filho se relaciona, você pode conversar com uma psicóloga infantil  Falar no WhatsApp



Referências

  • Sherman, L. E., Payton, A. A., Hernandez, L. M., Greenfield, P. M., & Dapretto, M. (2016). The Power of the Like in Adolescence: Effects of Peer Influence on Neural and Behavioral Responses to Social Media. Psychological Science, 27(7), 1027–1035.
  • Brustolin, S. W. (psicóloga). Entrevista sobre "farmar aura" e exposição nas redes sociais. aRede.
  • American Psychological Association (2023). Health Advisory on Social Media Use in Adolescence.
  • Oseman, A. Heartstopper (série de TV, Netflix, baseada nos quadrinhos originais da autora).