O que vamos explorar hoje?
- Por que seu filho pode preferir a companhia de adultos à de outras crianças da idade dele
- Os sinais que indicam uma dificuldade real de pertencimento, e não só uma fase
- O que a psicologia entende por "pertencimento" e por que ele não se mede em número de amigos
- Como ajudar seu filho a fazer amigos, sem forçar nem resolver por ele
- Por que o rótulo "antissocial" costuma esconder outra coisa
- Uma indicação de série para assistir em família sobre esse tema
SEU FILHO PREFERE FICAR COM OS ADULTOS A BRINCAR COM AS CRIANÇAS?
Na festa de aniversário, enquanto as outras
crianças correm atrás de bolha de sabão, o seu fica sentado do seu lado, ou
puxa conversa com os adultos por perto, muito mais à vontade com eles do que
com as crianças da própria idade?
Muitos pais descrevem esse comportamento como
uma qualidade. Dizem que o filho é mais tranquilo e maduro. Em alguns casos, é
exatamente isso: uma criança com interesses diferentes, que aproveita bem tanto
o momento com adultos quanto com outras crianças, sem nenhum sofrimento
envolvido.
Mas, em outros casos, esse mesmo comportamento
funciona como estratégia de evitação. A criança busca os adultos porque a
interação com os colegas é imprevisível demais, e ela ainda não sabe como
entrar numa roda, sustentar uma brincadeira ou lidar com a possibilidade de ser
rejeitada. Ficar perto de quem já a aceita de forma automática é mais seguro.
Um levantamento publicado em 2025 na European
Child and Adolescent Psychiatry, feito com quase 400 mil adolescentes de 93
países, mostra que 13,2% relatam sentir solidão com frequência, e a dificuldade
de pertencer ao grupo aparece entre os fatores mais associados a essa sensação.
A dificuldade não está em preferir momentos
mais calmos ou ter menos interesse por brincadeiras agitadas. Está em não
conseguir se aproximar dos colegas nem quando a vontade existe, porque o
desconhecido da interação entre pares pesa mais do que essa vontade.
Reconhecer esse padrão na sua criança não
significa automaticamente que ela tem um problema, mas alerta para a necessidade de entender melhor o que está por trás
de um comportamento que, à primeira vista, parece só timidez ou maturidade.
5 SINAIS DE
DIFICULDADE DE PERTENCIMENTO
Toda criança passa por fases em que se sente
de fora, principalmente quando muda de escola, de turma ou de cidade, e isso
faz parte do desenvolvimento. O que diferencia uma fase passageira de uma
dificuldade real de pertencimento é a frequência com que esses sinais aparecem
e o quanto eles já afetam a rotina do seu filho.
O primeiro sinal é o isolamento no recreio,
quando a criança fica sozinha nos momentos livres mesmo tendo oportunidade de
se aproximar dos colegas.
Além disso, existe a resistência a festas de
aniversário e a eventos sociais, com pedidos insistentes para não ir ou reações
de choro antes da saída.
Outro sinal é a crença rígida de que os outros
não gostam dela, mesmo diante de situações em que ninguém a rejeitou de fato.
Há também a dificuldade de iniciar e manter
conversas com os colegas, ficando sem saber o que dizer ou como se aproximar de
um grupo já formado.
Por fim, a dependência excessiva de um único
amigo aparece como sinal, quando toda a segurança social da criança está
depositada numa única pessoa, e a ausência dela vira motivo de crise.
Cathy Creswell, pesquisadora de Oxford que
estuda ansiedade e cognição social na infância, mostra que crianças socialmente
ansiosas tendem a interpretar situações neutras como ameaçadoras. Um simples
silêncio de um colega, por exemplo, pode ser lido como rejeição, mesmo quando
não existe nada do tipo acontecendo. É essa leitura distorcida que costuma
estar por trás de frases como "ninguém quer brincar comigo".
Nenhum desses sinais isolado indica
dificuldade de pertencimento. A
combinação de vários deles, com frequência e intensidade que preocupam, é o que
merece atenção.
Se esses sinais aparecem com frequência e estão afetando a forma como seu filho se relaciona, você pode conversar com uma psicóloga infantil Falar no WhatsApp
O QUE ASTA,
DE BLACK CLOVER, ENSINA SOBRE PERTENCIMENTO
Marina, 9 anos, tinha dificuldade de se
aproximar dos colegas da turma nova, e a mãe estava preocupada porque ela quase
não falava do recreio. Até que ela descobriu Asta, personagem de Black Clover
que nasce sem magia num mundo mágico e, mesmo assim, encontra a própria família
entre um grupo de rejeitados.
Já pensou que, às vezes, a solidão começa
muito antes de a criança ficar sozinha? Em Black Clover, todo mundo nasce com
magia. Asta é a exceção e, por isso, foi rejeitado por quase todos os capitães
de esquadrão. Desde criança, ele cresce sabendo que é uma exceção num mundo
estruturado inteiro em torno de um poder que não tem. Sem magia, é tratado como
incapaz, descartado antes mesmo de qualquer avaliação sobre quem ele é ou do
que é capaz. Por isso, quando chegou a hora de escolher um esquadrão, os
capitães o recusaram.
O único que o aceitou foi Yami, capitão dos
Touros Negros, um esquadrão formado por pessoas que também carregavam histórias
de rejeição e inadequação. Noelle era rejeitada pela própria família, Magna era
desvalorizado por não ter uma linhagem nobre e Charmy era frequentemente
subestimada. O que une o grupo é simples: encontraram, uns nos outros, um lugar
onde ninguém precisa provar nada para pertencer, e foi assim que Asta encontrou
acolhimento. Aos poucos, aquela convivência se transformou em uma família de
escolha, porque ali havia espaço para que cada um fosse quem era.
Uma verdade inegável é que seu filho pode
estar rodeado de crianças e ainda assim sentir que está do lado de fora. Isso acontece
porque pertencimento é sentir que existe um lugar para você naquele grupo, uma
sensação que vai muito além de estar fisicamente por perto. Algumas crianças
precisam de ajuda para construir relações nas quais consigam se aproximar,
participar e se sentir pertencentes, muito além de só ganhar mais oportunidades
de estar perto de outras crianças.
Existe uma pesquisa de Steven Asher e Julie
Paquette, da Universidade de Illinois, mostrando que ter uma única amizade
recíproca protege contra a solidão com mais força do que o número total de
colegas ou conhecidos que a criança tem.
Ou seja, em vez de contar quantos amigos o seu
filho tem, faz mais sentido observar se existe pelo menos um vínculo em que
ele se sinta genuinamente acolhido. Pertencimento de verdade não se mede em
quantidade. Se mede em segurança.
Como Asta com os Touros Negros, seu filho não
precisa ser aceito por todos, nem ser o mais popular da turma. Precisa de pelo
menos um espaço, um grupo, uma amizade, onde possa ser quem é sem precisar performar
constantemente.
COMO AJUDAR
SEU FILHO A FAZER AMIGOS, SEM FORÇAR NEM RESOLVER POR ELE
Ver o filho com dificuldade de fazer amigos é
uma das situações mais difíceis de assistir sem interferir. A vontade de
resolver, de organizar um encontro, de intervir em cada desentendimento é
imediata, mas nem sempre é a atitude que mais ajuda.
Primeiro, crie oportunidades estruturadas de
socialização, sem torná-las abertas demais. Um encontro de duas crianças em
casa, por um tempo limitado e com uma atividade combinada, costuma funcionar
melhor do que colocar o seu filho num grupo grande e esperar que ele se vire
sozinho.
Segundo, ensine habilidades concretas de
entrada em grupos, com ensaio prévio em casa. A pesquisadora Elizabeth
Laugeson, da UCLA, desenvolveu o programa PEERS, aplicado atualmente em mais de
150 países, e um dos pilares do método é treinar a criança a observar o que o
grupo está fazendo antes de entrar, encontrar um jeito de participar que
combine com a brincadeira já em andamento e recuar sem drama se não for bem
recebida naquele momento.
Terceiro, resista ao impulso de intervir em
cada conflito. Discussões, desentendimentos e reconciliações fazem parte de
como a criança aprende a negociar e reparar uma relação, e fazer isso por ela
sistematicamente tira justamente a prática de que ela mais precisa.
Nenhuma dessas estratégias garante uma amizade
da noite para o dia, mas juntas criam as condições para que ela
aconteça com mais naturalidade.
A MÃE
ACHAVA QUE A CRIANÇA ERA ANTISSOCIAL: A AVALIAÇÃO MOSTROU OUTRA COISA
Marina, 8 anos, chegou ao consultório porque a
mãe já tinha ouvido de professores e familiares que a menina "não gostava
de gente". Ela evitava a roda dos colegas, recusava festa de aniversário
e, em casa, preferia ficar sozinha no quarto. O rótulo que se formou em volta
dela foi antissocial.
Antissocial é uma palavra que aparece com
frequência em salas de aula e em conversas de família, geralmente para
descrever uma criança que evita contato, prefere ficar sozinha ou fica
desconfortável em grupo. O problema é que essa palavra descreve um
comportamento, mas não explica a causa dele.
Uma coisa que a maioria das pessoas não sabe é
que o comportamento evitativo quase nunca significa desinteresse pelos
outros. Na maioria dos casos que atendo, esse tipo de comportamento costuma
esconder medo: medo de ser julgada, de errar socialmente, de não saber o que
fazer quando todo mundo ao redor já parece saber. Isso é mais comum do que
parece, e muita gente confunde uma criança que evita situações sociais com uma
criança que não quer se relacionar, quando na verdade o medo interfere antes
que ela consiga se aproximar. Com 15 anos de experiência com crianças e
adolescentes, posso afirmar que esse é um dos padrões que mais chega ao meu
consultório sendo mal interpretado.
Depois da avaliação de Marina, ficou claro que
o que a família via como frieza era ansiedade social não identificada. O
trabalho ao longo dos meses seguintes trouxe mudanças concretas: ela passou a
aceitar ficar até o fim de uma festa, começou a puxar assunto sozinha com uma
colega da sala e, num sábado, pediu para chamar uma amiga para dormir em casa,
coisa que nunca tinha acontecido antes.
A mãe resume assim: "Eu achava que ela
não gostava de gente. Agora eu sei que ela só precisava de ajuda para se sentir
segura perto das pessoas."
Caso fictício baseado em situações recorrentes
no consultório. Identidade preservada.
Indicação de série: Hilda
Hilda é uma menina que vivia numa floresta cheia de criaturas mágicas e precisa se mudar para a cidade de Trolberg, um lugar completamente diferente do que ela conhecia. Lá, ela enfrenta o desafio de se adaptar e de fazer amigos num ambiente novo, até formar um grupo pequeno e verdadeiro com Frida e David.
A série trata da mudança, da adaptação e da construção de vínculos com muita leveza, sem simplificar a dificuldade real que existe em chegar num lugar novo sem conhecer ninguém.
Para uma criança que também está aprendendo a lidar com isso, ver Hilda enfrentando o mesmo tipo de desafio, com medo, mas sem deixar de tentar, pode abrir uma conversa boa em casa sobre como tem sido essa experiência para ela.
Disponível na Netflix. Classificação indicativa a partir dos 7 anos, ótimo para assistir em família.
TERAPIA
PARA ANSIEDADE SOCIAL INFANTIL
Tem percebido que seu filho evita a roda dos
colegas, prefere ficar sozinho ou já foi chamado de "antissocial" por
mais de uma pessoa?
Sou Laila Braga, psicóloga infantil com 15
anos de experiência, e faço atendimentos presencial em Vitória da Conquista e
online para qualquer lugar do mundo. Estou sempre desenvolvendo meus estudos e
práticas para ajudar crianças e famílias que convivem com ansiedade infantil.
Trabalhar o reconhecimento do medo por trás da
evitação, o desenvolvimento de habilidades sociais concretas e a forma como os
pais respondem a esse comportamento é parte central da Terapia Cognitivo
Comportamental, abordagem que sigo. Ajudar seu filho a se sentir seguro perto
das pessoas é uma das minhas missões.
A terapia pode ser o início de uma mudança real. Mande uma mensagem e agende a sessão inicial.
Referências
- Hu, W., Li, B., Li, X. et al. (2025). The distribution of frequent
perceived loneliness and its association with suicidal behaviors in
adolescents: a school-based study across 93 countries/territories. European
Child & Adolescent Psychiatry, 34, 2779–2789.
- Halldorsson, B., & Creswell, C. (2017). Revisiting the concept
of maintenance for child and adolescent social anxiety disorder. Journal
of Child Psychology and Psychiatry, 58(9), 992–1010.
- Laugeson, E. A., & Frankel, F. (2010). Social Skills for
Teenagers with Developmental and Autism Spectrum Disorders: The PEERS
Treatment Manual.
- Asher, S. R., & Paquette, J. A. (2003). Loneliness and Peer
Relations in Childhood. Current Directions in Psychological Science,
12(3), 75–78.
- Pearson, L. (autor). Hilda (série de animação, Netflix,
baseada nos quadrinhos originais).