O que vamos explorar hoje?
- Por que a dor de barriga recorrente antes da escola pode ter origem na ansiedade
- Como perceber o padrão quando os exames vêm sempre normais
- O que Edward Elric, de Fullmetal Alchemist, ensina sobre o corpo que fala
- A história de Helena: como a terapia ajudou a família a mudar a pergunta
- Um guia para pais sobre o que fazer quando a dor não tem explicação médica
- Ideias de presente e uma indicação de filme para conversar em família
TODA MANHÃ,
NA HORA DE SAIR PARA A ESCOLA, A DOR DE BARRIGA APARECE. POR QUÊ?
Toda segunda de manhã, na hora de vestir o
uniforme, a dor de barriga aparece. Vocês já foram ao pediatra tantas vezes que
ele nem pede mais exame, só repete que está tudo bem. Isso costuma se
repetir de um jeito que chama atenção. A dor volta sempre no mesmo tipo de
manhã, nunca no fim de semana ou no dia do passeio que a criança está
esperando.
John Campo, psiquiatra da Ohio State
University, acompanhou um grupo de crianças de 8 a 15 anos com dor abdominal
recorrente sem causa médica identificada. O resultado, publicado na revista Pediatrics,
mostrou que 79% delas tinham um transtorno de ansiedade diagnosticável.
Isso acontece porque o corpo infantil ainda
está aprendendo a lidar com emoções difíceis. Quando a criança não tem palavras
ou espaço para nomear o que sente, o sistema nervoso encontra outro caminho
para expressar esse estado de alerta, e essa rota costuma passar pelo
intestino, pela cabeça e pelos músculos. Quando a criança ainda não tem
recursos para nomear o que sente, o corpo assume essa função. É um
mecanismo real, estudado, e que tem solução.
Entender essa ligação já muda a forma como
você olha para a próxima queixa. Assim, você passa a se perguntar o que mais
pode estar por trás do sintoma físico, sem deixar de levá-lo a sério.
OS EXAMES
DO SEU FILHO VÊM SEMPRE NORMAIS, MAS A DOR CONTINUA?
Seu filho reclama de dor de barriga toda manhã
antes da escola e você já levou em mais de um médico que não encontrou nada? Talvez
o exame que faltava não seja físico. Crianças raramente conseguem dizer
"estou ansiosa" do jeito que um adulto diria. O corpo delas fala por
elas e a barriga costuma ser o primeiro lugar onde isso aparece.
O padrão se repete de formas diferentes. Dor
de cabeça antes de uma prova, cansaço que não combina com uma noite de sono
cheia e enjoo antes de dormir na casa de alguém são queixas físicas
extremamente comuns em crianças ansiosas. O corpo da criança ainda não
separa tão bem emoção de sensação física quanto o de um adulto, então a
preocupação vira dor real.
Por isso, antes de descartar como frescura,
observe o padrão. A dor aparece sempre no mesmo tipo de situação? Vem junto com
resistência para ir à escola ou medo de errar?
A queixa de dor sem causa médica leva muitas
famílias de consultório em consultório. Maria Clara tem 7 anos e, nas noites de
domingo, diz que está enjoada. Na segunda de manhã, quando descobre que a aula
do dia será de educação física, o enjoo desaparece.
Nesses casos, observar quando o sintoma
aparece, ou seja, o dia, o horário e o que está para acontecer, ajuda o
pediatra e o psicólogo a enxergarem o mesmo quadro por ângulos diferentes. Investigar
com um médico continua importante, para descartar causa orgânica, mas
quando os exames vêm normais e o padrão se repete, olhar para a ansiedade pode
ser o próximo passo.
Levar essa dor a sério ajuda seu filho a ser
ouvido antes que o corpo precise gritar ainda mais alto.
Se esses sinais aparecem com frequência e estão afetando a forma como seu filho se relaciona, você pode conversar com uma psicóloga infantil Falar no WhatsApp
O QUE
EDWARD ELRIC ENSINA SOBRE O CORPO QUE FALA
Será que a dor do seu filho começou numa
emoção que ele não sabe explicar? Em Fullmetal Alchemist, a alquimia é a
ciência do mundo. Edward Elric usou uma técnica proibida dela que deu errado e,
por isso, carrega as marcas no corpo. Mas o que isso tem a ver com seu
filho?
Uma verdade que muitos pais conhecem é que a
criança pode se queixar de dor de barriga e de cabeça, além de cansaço, sem que
os exames encontrem uma causa física, embora o incômodo seja real. Uma
explicação para isso está na relação entre o corpo e as emoções, pois
sentimentos difíceis podem se manifestar fisicamente.
Algo parecido aparece na história de Edward,
que ainda criança tentou, ao lado do irmão Alphonse, trazer a mãe de volta à
vida. O plano fracassou e ele ficou sem a perna esquerda, enquanto o caçula
perdeu o corpo inteiro. Para prender a alma do irmão a uma armadura, Edward
ofereceu também o seu braço direito.
Por isso, ele passou a usar próteses e é
justamente aí que a história encontra a realidade de muitas garotas e garotos.
Assim como o braço e a perna de metal de Edward revelam o que ele viveu, o
corpo das crianças pode indicar o que elas sentem.
Isso acontece porque muitas delas sentem mais
do que conseguem dizer e ainda não têm repertório verbal para dividir esse peso
com os adultos ao redor e, assim, a dor acaba se manifestando fisicamente.
Existe uma pesquisa de Carolien Rieffe e
colegas, da Universidade de Leiden, mostrando que crianças com mais dificuldade
para identificar e comunicar sentimentos costumam relatar mais sintomas
físicos, como dor de barriga e de cabeça, tontura e cansaço. Isso quer dizer
que, quando a criança aprende a reconhecer e a nomear o que sente, ela ganha
mais uma forma de expressar o desconforto. Ou seja, quando a emoção encontra
palavras, o corpo deixa de falar por ela.
Davi, 9 anos, respondia "estou
bem" toda vez que a mãe perguntava como foi o dia, mas à noite
reclamava da barriga. Em uma sessão, enquanto desenhava, contou que sentia medo
de decepcionar o professor depois de errar numa prova e, assim, o desconforto
que sempre surgia nessa hora passou a ter uma explicação que ele conseguia
colocar em palavras. Tal como Edward Elric, de Fullmetal Alchemist, o menino
levava consigo algo que ainda não havia dito.
Em resumo, o corpo de Edward guarda as marcas
daquele dia, enquanto o do seu filho pode estar mostrando o que ele ainda
não consegue dizer.
ELA IA AO
MÉDICO TODA SEMANA E A PERGUNTA DA FAMÍLIA MUDOU
Algumas histórias começam numa sala de espera
de pediatria. A de Helena, de 9 anos, aparecia ali quase toda semana, com dor
de barriga e de cabeça antes da escola, além de um cansaço sem explicação. Os
exames de sangue, de fezes e de imagem vinham sempre normais. Foi o próprio
pediatra quem sugeriu a avaliação psicológica, depois de descartar as causas
físicas. A pergunta da família passou a incluir "o que Helena está
sentindo?", além de "o que Helena tem no estômago?".
Na avaliação, conversei com Helena e com os
pais sobre os momentos em que a dor aparecia. O padrão ficou claro,
porque as queixas se concentravam nas manhãs de escola, principalmente nos dias
de prova e de apresentação, e quase não existiam aos sábados.
O primeiro passo do tratamento foi explicar a Helena, com desenhos, como o corpo reage ao medo. O
coração acelera, os músculos ficam tensos e o estômago aperta. A partir dessa
explicação, Helena entendeu que a dor era real e tinha uma origem que podia ser
trabalhada.
Em seguida, passamos a identificar os
pensamentos que chegavam junto com a dor, como "e se eu passar mal na
frente da turma?" e "se eu vomitar na sala, todo mundo vai rir de
mim". Ao colocar esses pensamentos no papel, Helena percebeu que eles
apareciam sempre antes da barriga apertar.
A etapa seguinte foi testar a veracidade
desses pensamentos. Helena aprendeu a perguntar a si mesma
"isso já aconteceu antes?" e "o que eu diria a uma amiga que
pensasse isso?". As respostas deram a ela uma forma mais realista de olhar
para a situação.
Depois disso, combinamos um experimento. Helena previu que passaria mal na sala se fizesse uma apresentação com
a barriga apertada. Então foi à escola e anotou o que realmente acontecia. A
dor chegou ao ponto máximo antes da apresentação começar e diminuiu durante a
fala. Ou seja, o que ela temia não aconteceu.
Com os pais, o trabalho foi mudar a forma de
responder às queixas. Eles passaram a validar a dor com uma frase breve e a
seguir a rotina da casa, o que reduziu o número de perguntas sobre o sintoma e
de dias fora da escola.
Em poucos meses, Helena passou a ir à escola
na maior parte dos dias. As idas semanais ao consultório médico saíram da
rotina da família. No fim do ano, Helena apresentou um trabalho para a turma
mesmo com a barriga apertada e voltou para casa contando como tinha sido.
Helena ainda sente a barriga apertar em dias
de pressão, porém agora sabe o que isso significa e o que fazer a respeito.
Quando a dor se repete e os exames vêm
normais, a pergunta que mais ajuda costuma ser a que ainda não foi feita. No
caso de Helena, ela chegou pelas mãos do pediatra e abriu espaço para olhar
também para o que a menina sentia antes de cada dor. Esse olhar mais amplo permitiu
que ela e a família encontrassem novas formas de lidar com os dias difíceis.
Caso fictício baseado em situações recorrentes
no consultório. Identidade preservada.
GUIA PARA
PAIS: O QUE FAZER QUANDO A DOR DO SEU FILHO NÃO TEM EXPLICAÇÃO MÉDICA
Os exames voltam normais, mas a dor continua
real para o seu filho e é justamente aí que a maioria dos pais não sabe mais o
que fazer. Alguns caminhos práticos ajudam a lidar com isso em casa.
Primeiro, é importante validar a dor sem
reforçar a esquiva. Dizer que acredita na dor dele já reduz boa parte da
angústia, mas evite deixar ele faltar à escola ou cancelar compromissos toda
vez que a dor aparece, porque isso ensina ao corpo que fugir da situação é o
único jeito de aliviar o desconforto.
Uma frase que funciona bem nesse momento é
"eu sei que sua barriga dói de verdade, vamos ver juntos o que dá para
fazer para você ir mesmo assim", porque ela valida o sintoma e mantém o
funcionamento.
Segundo, construa uma rotina de
descompressão para ajudar o sistema nervoso a sair do estado de alerta
constante. Pesquisadores da McMaster University, em estudo publicado na
Trends in Psychology, compararam jogar o game casual Flower com uma meditação
guiada de body scan e não encontraram diferença significativa entre os dois na
redução de frequência cardíaca e pressão arterial.
Na prática, isso significa que cozy games como
Stardew Valley ou Unpacking, sem tempo cronometrado, sem violência e sem
pressão de desempenho, podem funcionar como uma ferramenta real de
desaceleração para crianças mais velhas e adolescentes.
Terceiro, mas não menos importante, quando
a dor persiste por semanas, atrapalha a rotina escolar, social ou já teve a
origem física descartada pelos exames, esse é o momento de buscar uma avaliação
com psicóloga infantil.
Nem toda dor recorrente exige terapia, mas
toda dor que persiste sem explicação no corpo merece ser investigada.
Indicação de filme: A Viagem de Chihiro
Na dica de filme de hoje quero falar de A Viagem de Chihiro, do Studio Ghibli, e vencedor do Oscar de Melhor Filme de Animação em 2003.
Chihiro é jogada, do nada, num mundo desconhecido, cheio de regras que ela não entende e de seres que ela nunca tinha visto. Antes mesmo de entender o que está acontecendo, o corpo dela já reage: ombros tensos, respiração curta, aquele estado de alerta que a tela inteira transmite sem precisar de uma palavra.
É quase uma representação visual do fio que puxamos ao longo deste texto: o corpo sentindo a ansiedade antes da mente conseguir nomear o que está acontecendo. Ela não para de sentir medo, mas aprende a agir mesmo com ele por perto.
Disponível na Netflix, classificação livre no Brasil. Recomendo a partir dos 8 anos, com uma conversa depois sobre como Chihiro deve ter se sentido quando chegou ao mundo da Yubaba, sem pai, sem mãe e sem saber as regras daquele lugar.
TERAPIA
INFANTIL PARA DORES NO CORPO LIGADAS À ANSIEDADE
Tem percebido que seu filho reclama de dor de
barriga, de cabeça ou de cansaço antes da escola, e que os exames não encontram
nenhuma causa física?
Sou Laila Braga, psicóloga infantil com 15
anos de experiência, e faço atendimentos presencial em Vitória da Conquista e
online para qualquer lugar do mundo. Estou sempre desenvolvendo meus estudos e
práticas para ajudar crianças e famílias que convivem com ansiedade infantil.
Trabalhar o reconhecimento dos sinais do
corpo, a identificação dos pensamentos que chegam junto com a dor e a
orientação aos pais sobre como responder às queixas é parte central da Terapia
Cognitivo Comportamental, abordagem que sigo. Ajudar seu filho a entender o que
o corpo está tentando dizer é uma das minhas missões.
A terapia pode ser o início de uma mudança
real. Mande uma mensagem e agende a sessão inicial.
Se esses sinais aparecem com frequência e estão afetando a forma como seu filho se relaciona, você pode conversar com uma psicóloga infantil Falar no WhatsApp
Referências
- Campo, J. V., Bridge, J., Ehmann, M., et al. (2004). Recurrent
abdominal pain, anxiety, and depression in primary care. Pediatrics,
113(4), 817–824.
- Jellesma, F. C., Rieffe, C., Meerum Terwogt, M., & Kneepkens,
C. M. F. (2007). Somatic complaints and health care use in children: Mood,
emotion awareness and sense of coherence. Social Science & Medicine,
63(10).
- Desai, V., Gupta, A., Andersen, L., Ronnestrand, B., & Wong, M.
(2021). Stress-Reducing Effects of Playing a Casual Video Game among
Undergraduate Students. Trends in Psychology.
https://doi.org/10.1007/s43076-021-00062-6
- Arakawa, H. Fullmetal Alchemist (mangá).
- Miyazaki, H. (Diretor). (2001). A Viagem de Chihiro [Spirited
Away]. Studio Ghibli.
